JAMIE OLIVER FALA SOBRE SUCESSO, ALIMENTAÇÃO E BRASIL

Chef, Showman, Empresário, Polido, Grosso... Jamie Oliver Mal Cabe Na Bancada Em Que Dá Aulas De Cozinha, Que Dirá Em Rótulos. Ele Dedicou 14 De Seus Caros Minutos Ao Paladar E Confirmou: O Brasil Que Aguarde, Que Ele Vem Com Tudo!

Falando ao suplemento "Paladar", do jornal "Estadão", o chef britânico Jamie Oliver revelou ao jornalista José Orenstein que está de olho no Brasil e na oportunidade de negócios com a Copa de 2014.

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"Ele está mais rechonchudo do que nas imagens da TV a  cabo que  chegam ao Brasil. E linhas horizontais bem delineadas vincam sua testa. O corpo dá sinais dos 38 anos, mas a fala e o gestual eletrizados ainda são de  um moleque de 18, hiperativo.

Chacoalhando os joelhos e se movendo de um lado para o outro como se dançasse twist, Jamie Oliver apresenta os ingredientes que vai usar. "Lovely!", exclama o chef, ao agarrar chiles, folhas de curry e um lagostim ainda vivo, agitando as patinhas. Ele está a meio metro de distância, atrás da bancada de sua escola de cozinha Recipease, no bairro de Notting Hill. É uma noite de frio moderado e céu aberto, atípica para o novembro londrino.

Antes da chegada de Jamie, assessores e um fotógrafo exclusivo da equipe dele zanzavam pelo segundo andar do Recipease preparando o terreno. Este repórter e um grupo de mais nove brasileiros - composto pela equipe do Shoptime, canal de vendas pela TV, e dois funcionários da Phillips - aguardavam o chef para cozinhar com ele. Jamie iria apresentar uma panela multiuso que mantém a temperatura e mexe a comida sozinha. Utensílio que chega ao Brasil, em janeiro, ao preço de R$ 2 mil, com a assinatura de Jamie.

O jeitão despojado do chef, de jeans e camisa, quase faz esquecer que ele é um magnata da comida e uma celebridade internacional. Naquela noite, Jamie surgiu do nada: veio pelos fundos do prédio, pois, segundo os assessores, se entra pela porta da frente é parado por todo mundo para tirar fotos. E, de fato, antes de começar a cozinhar, posou para retratos com todo o time de brasileiros, ganhou presentes e fez piada.

Os assessores que estavam no Recipease fazem parte do grupo de 4 mil pessoas que trabalha para o chef inglês, dono de uma fortuna estimada em £ 150 milhões, mais de meio bilhão de reais. Alguns outros números do seu império: 27 programas de TV distribuídos em mais de 40 países, 24 livros lançados (com best-sellers com mais de 1 milhão de cópias), quatro redes de restaurantes (a marca Jamie's Italian está em toda a Inglaterra e em Dubai, Cingapura, Rússia, Turquia, Irlanda), quatro aplicativos para celular, um canal no YouTube, uma revista mensal de receitas, uma rede de escolas de cozinha, uma empresa de catering, uma fornecedora de fornos, uma linha de produtos de cozinha, uma linha de ingredientes. A lista prossegue. Para não falar na fundação que promove diversas campanhas na Inglaterra e no mundo todo pela alimentação consciente nas escolas.

Jamie, na Inglaterra, é figura muito popular, que está na TV aberta e volta e meia figura nos tabloides sensacionalistas, que perscrutam a vida de sua mulher Jools e dos quatro filhos - Poppy, Daisy, Petal e Buddy. Seu negócio não é a cozinha de vanguarda; ele quer é descomplicar. Mal comparando, está mais para Olivier Anquier das massas que para Alex Atala.

Pois é essa celebridade-multinacional-benemerente que pica uma pimenta em segundos, sem olhar para a tábua. E começa a se empolgar com o que está cozinhando, jogando os ingredientes na panela meio desabaladamente. Jamie é espontâneo e fica extremamente à vontade com câmeras e com o fato de ser o centro das atenções. Parece ser um cara simples, às vezes até simplório. Enquanto cozinha, desvia-se nos assuntos, é dispersivo, exatamente como parece na TV. Diz ser disléxico e nunca ter terminado um livro.

A inteligência de Jamie manifesta-se menos na teoria e mais na ação: magnetiza o público, tanto para grandes audiências como para aquela dezena de pessoas para quem fez e ensinou a fazer um curry com lagosta - bem apimentado, diga-se.

Jamie então autografa seu mais novo livro, um por um. E, da mesma forma como chegou, desaparece - sem alarde, pelos fundos. Não sem antes conceder a entrevista exclusiva abaixo, "ler" a edição da semana do Paladar e parar para abraços e fotos com o pessoal do backstage, que se aglomerava na entrada da cozinha de produção - todos ansiosos por uma lasquinha do mestre-celebridade.
Dez minutos. Antes de partir para Londres, fui informado que esse era o tempo que teria para entrevistar Jamie Oliver. Pouco antes de ele chegar ao Recipease de Notting Hill, uma assessora retifica: cinco minutos. Quando o chef já estava na escola de cozinha, outra assessora emenda: "Não vai ter conversa. Você pode ir perguntando enquanto ele cozinha".

Enquanto ele cozinhava, foi impossível - ele não para quieto e eu também tinha de picar cebola, pimenta, descascar camarão e mexer uma panela sob orientações do próprio e de seus ajudantes. Mas, findo o curry à Jamie Oliver, ele parou para assinar meu exemplar de seu último livro, Save with Jamie (sem edição no Brasil). Soletrei meu nome, ele rabiscou na primeira página em branco do volume e emendei: "Posso fazer umas perguntas?" Ele: "Claro!". Foram 13 minutos e 58 segundos com um Jamie atencioso e nada dispersivo. Que confirmou que vai abrir um restaurante - o Jamie's Italian - em São Paulo no ano que vem.

Ser chef virou algo glamouroso e você tem parte nisso. Que acha dessa moda?

Ganhar muita grana, ficar milionário, fazer coisas doidas na TV - não é por isso que alguém vira chef. Desde sempre se cozinhou, mas, ao menos na Inglaterra, ser chef era o que sobrava para as crianças burras. "Você não pode ser empresário, melhor virar empreiteiro ou chef". Hoje, um chef pode ser gênio como qualquer outro profissional. Para a gastronomia é muito bom: você tem um mercado mais consolidado. Agora, é muito trabalho e por muitas horas. Você não ganha dinheiro até virar head chef, ou dono do seu negócio.

Você é grande defensor da comida local, orgânica se possível, e de qualidade. Mas é a indústria dos alimentos que permite hoje alimentar 6 bilhões de pessoas no mundo. Como alcançar tamanha escala com qualidade?

Aprendi nos últimos anos: industrializado não significa porcaria. Má qualidade é má qualidade. Ciência, linhas de produção, agrônomos, técnicos, isso pode significar muita qualidade. O mundo está em um novo momento. Nos últimos dez anos, entendemos a produção artesanal do passado e também as necessidades modernas, como tecnologia, produção em massa e supermercados. Estamos agora num momento de reequilíbrio. Sei por experiência própria que muitas grandes empresas têm capacidade de fazer a coisa certa. Trabalho com um supermercado australiano que tem planos concretos de larga escala de comércio justo. Não sei qual é a realidade do Brasil, mas aqui na Inglaterra as feiras de rua, de pequenos produtores, estão renascendo. Lojas pequenas e médias orientam o produtor, dão conselhos e até ajuda financeira, fortalecendo toda a cadeia de abastecimento.

Meu mundo de comida é louco, maluco, pirado. Eu preciso trabalhar nesses diferentes ramos, mas tenho meus valores. Cresci no campo, entendo a língua dos pequenos produtores. É preciso se preocupar não só com o que já é bom: é preciso se preocupar em fazer o que é mediano virar bom. É um momento muito interessante. A Inglaterra mudou muito nos últimos 15 anos.

Como acha que vai ser daqui a dez anos, qual será o prato típico da família inglesa?

Eu não acho que o prato típico vá mudar. Acho que mudou a confiança dos ingleses em cozinhar comida boa e fresca rapidamente num dia comum, não só no fim de semana. Se você sabe cozinhar, pode alimentar bem sua família, mesmo com pouca grana. A melhor comida do mundo vem de comunidades que não têm muito dinheiro. Vi com os próprios olhos. Meu sonho é que toda criança no mundo seja alimentada corretamente na escola e deixe a escola com seus 16 anos entendendo o que é comida e como ela afeta seu corpo.

Quanto tempo você dedica a essas causas?

Muito. Tento equilibrar, hoje é 50% a 50%.

Você é idolatrado por alguns, mas recebe críticas duras, como um recente artigo no Guardian e um texto do renomado escritor Will Self dizendo que te odeia. Você liga para as críticas?

Não. Quer dizer, claro que uma parte de você liga, mas eu não sou estúpido. O que eu tento é garantir que faço e digo as coisas certas. Mas na Inglaterra hoje se você tem uma opinião a mídia não gosta. E eu estou cagando pra isso. Sempre que falo com um jornalista, alguma coisa vai parar numa manchete. Coisas como eu não dar um celular pra minha filha. Por quê? Porque eu não acho bom. Ela é a única da classe que não tem, mas essa coisa besta vai parar em todos os jornais. Tudo que falo vira controvérsia. Mas, no fundo, sei que estou na direção certa. Você não pode ser amigo de todo o mundo. Eu permaneço apolítico - não votei nos últimos oito anos, pois tenho que trabalhar com o governo e com a oposição. E os jornais são muito divididos. Num minuto o Guardian me ama, noutro me esculhamba. Quer saber? Tenho 38 anos, as últimas três ou quatro coisas que saíram na mídia foram meio caóticas. As pessoas próximas me ligam, preocupadas, mas eu tenho dito: deixa rolar. Às vezes posso dizer coisas que não estejam 100% certas, mas é o que acredito no momento. Por exemplo, está certo você ter uma criança em casa que só come merda e ter uma TV de tela plana gigante? Isso é correto? Eu acho que não. Disse isso e virou um debate louco. Mas não vou dar merda para meus filhos e sentar no sofá e relaxar ouvindo meu sistema surround de som. É um debate interessante. Se minha imagem sair boa, ótimo. Se sair ruim, ótimo também. Agora, se falo algo errado, que sai de contexto, aí fico triste e tento consertar.

Soa o gongo. Uma assessora interrompe: "Jamie, você tem que ir. Tem outros compromissos ainda esta noite". Ele vira para mim: "Olha, eu realmente não tenho tempo. Não quero ser rude com você. Manda o que você quiser por e-mail, eu respondo". Peço para fazer uma última pergunta. É sobre se ele vai mesmo abrir um restaurante no Brasil. "Sim. Quando? Não sei. Estamos procurando um bom lugar. Mas vamos abrir no Brasil, com certeza. Achamos um parceiro ótimo. Onde? Não posso dizer agora." Arrisco: É em São Paulo? "Aham, é uma boa ideia. Aliás é uma ideia bem possível. Será São Paulo, será possivelmente dentro de um ano e meio. Mas não sei onde exatamente. É meu primeiro passo no Brasil, estou empolgado. Sinto que as energias vão rolar, vamos ver. Se for legal, quem sabe não me envolvo mais e desenvolvo outros projetos?" 
A partir do Estadão. Leia no original

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