UM BRASIL SABOROSO E ORIGINAL

"Sabor do Brasil” (Editora Sextante, 344 págs., R$.89.90) é resultado de um profundo e disciplinado trabalho de reportagem, que levou a jornalista e escritora Alice Granato e o fotógrafo Sergio Pagano a percorrer todas as regiões do país, visitar dezenas de cidades, entrevistar inúmeros personagens e coletar uma quantidade surpreendente de informações sobre a fascinante cultura brasileira.

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A autora é uma das grandes revelações na minha jornada de mais de trinta anos como repórter e editor nas redações de jornais e revistas. Conhecemo-nos em 1998 na redação da revista Veja, em São Paulo. Eu era editor executivo, responsável pelas seções de Economia e Assuntos Gerais. Ela, vinda de uma carreira já bem-sucedida como repórter do jornal O Estado de S.Paulo, foi contratada como editora assistente, encarregada de produzir reportagens na área de comportamento. Era uma das rubricas mais importantes da revista, na qual competia aos jornalistas antecipar, observar e analisar tendências.

Gentil, educada e habilidosa na arte de entrevistar, Alice revelou-se de imediato uma jornalista capaz de arrancar de suas fontes histórias e confissões pessoais que dificilmente outros profissionais conseguiriam. Coube a ela produzir uma sequência notável de reportagens especiais, algumas destacadas na capa da revista. Mas o destino nos reservava um encontro ainda mais transformador, desta vez no mundo da literatura.
Em 2006 convidei Alice a auxiliar-me nas pesquisas de um assunto que havia quase uma década me fascinava: a fuga da família real portuguesa para o Brasil em 1808. Esse trabalho resultaria no lançamento de um best-sellerimprovável, o livro 1808.

Em parceria com o músico e pesquisador Zé Marcio Alemany, Alice fez a descoberta mais importante do livro: a informação de que no dia 15 de junho de 1814 nasceu no Rio de Janeiro uma criança com o nome de Joaquinna dos Santos Marrocos. Segundo as evidências reunidas por Alice e Zé Marcio, foi uma filha que o arquivista real Joaquim dos Santos Marrocos, um dos protagonistas da história da Corte portuguesa no Brasil, teve antes do casamento e cuja existência era até então ignorada pelos historiadores. Os documentos que comprovam essa informação permaneceram adormecidos nos arquivos da Catedral da Sé do Rio de Janeiro até caírem sob os olhos curiosos e implacáveis dos dois pesquisadores. É esta a jornalista e escritora que se revela por inteiro no livro que acaba de lançar.

Em Manacapuru, perto de Manaus, testemunhou a pesca artesanal do pirarucu, ingrediente fundamental na dieta dos ribeirinhos amazônicos. Em Natal, no Rio Grande do Norte, entrevistou a filha e a neta do etnólogo Luís da Câmara Cascudo, autor de um clássico sobre o tema, História da alimentação no Brasil. No bairro de Apipucos, no Recife, visitou a casa onde viveu Gilberto Freyre, autor do célebre Casa-grande & Senzala. Ouviu de Sônia, filha do sociólogo pernambucano, uma revelação curiosa: “Papai dizia que, por mais letrada que fosse a mulher, ela precisava saber cozinhar. Eu sei! E o mulherio da família é todo bom de fogão.” 

Neste Sabor do Brasil o país que se desvenda ao leitor é o território exuberante e divertido que ao longo de nossa história sempre fascinou os viajantes destas terras tropicais. Saídos do ambiente circunspecto e conservador dos salões europeus, todos eles se surpreendiam com a rica variedade de pratos, os perfumados e coloridos ingredientes da culinária local, além do costume disseminado dos anfitriões de brindar suas visitas com refeições memoráveis. No Brasil, desde os tempos coloniais, variedade e fartura sempre foram sinônimo de boa hospitalidade. Os mesmos viajantes, porém, frequentemente se surpreendiam com os hábitos pouco convencionais dos brasileiros à mesa.

O inglês John Mawe, que percorreu o território de sul a norte em 1808, mesmo ano da chegada da Corte ao Rio de Janeiro, assim descreve os hábitos alimentares em Minas Gerais:

“Ao almoço, feijão preto misturado com farinha de milho e um pouco de torresmo de toucinho frito ou carne cozida; ao jantar, um pedaço de porco assado; derramam água em um prato de farinha de milho; colocam tudo amontoado na mesa e aí põem também um prato de feijão cozido; cada um se serve à vontade; há apenas uma faca, da qual não fazem uso; um prato ou dois de couve completam o repasto; servem ordinariamente estas comidas nas panelas de barro em que foram cozidas; algumas vezes, as colocam em pratos de estanho. A bebida comum é água; na ceia só comem hortaliças cozidas e pequeno pedaço de toucinho para lhes dar gosto. Em dias de festa ou quando recebem pessoas estranhas, acrescentam às refeições uma galinha cozida.”

O também inglês John Luccock, comerciante que se estabeleceu no Rio de Janeiro na mesma época, faz um retrato divertido dos hábitos dos cariocas. Segundo ele, a família geralmente passava o tempo nos aposentos da parte de trás das casas. Era ali que todos se reuniam para fazer as refeições, usando como mesa uma tábua colocada sobre um cavalete no meio da sala. Segundo seu registro:

“A refeição principal ocorre ao meio-dia, por ocasião da qual o chefe da casa, sua esposa e filhos às vezes se reúnem ao redor da mesa; é mais comum que a tomem no chão, caso em que a esteira da dona da casa é sagrada, ninguém se aproximando dela senão os  favoritos reconhecidos.”

Segundo relato da viajante inglesa Maria Graham, que esteve no Brasil na época da Independência, o próprio imperador Pedro I era um homem de apetite voraz, mas hábitos gastronômicos simplórios. Gastava menos de vinte minutos em cada refeição. Seu prato preferido era “um pedaço gorduroso de carne de porco ou de boi com arroz, batata e abóbora cozida – tudo misturado no mesmo prato”. A carne era “tão dura que poucas facas conseguiriam cortá-la”, segundo observou Maria Graham.

Alice Granato e Sérgio Pagano
A partir da segunda metade do século XIX, já no reinado de Pedro II, os hábitos se sofisticam. No livro As barbas do imperador, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz registra que nesse período são traduzidos inúmeros manuais de etiqueta e boas maneiras, na tentativa de “civilizar” os hábitos da sociedade no Rio de Janeiro. Uma dessas obras, editada em 1872, de autoria de Boitard Pierre, trazia um título quilométrico e autoexplicativo: Novo manual do bom-tom, contendo modernismos, preceitos de civilidade, política, conduta e maneiras em todas as circunstâncias da vida indispensáveis à mocidade e aos adultos para serem bem-quistos e caminharem sem tropeços pela carreira do mundo .

Era, obviamente, um esforço para enquadrar em padrões europeus justamente o que mais encantava nos viajantes: a simplicidade, o exotismo e a naturalidade das coisas brasileiras. Naquela época, mais de 90% da população vivia no meio rural e seria impensável exigir dela regras de etiqueta que sequer haviam sido ainda assimiladas pela nobreza tupiniquim criada no primeiro e no segundo impérios mediante uma farta distribuição de honrarias para os ricos da terra.

Desde então o Brasil mudou muito, a começar pela sua distribuição demográfica. Hoje, a imensa maioria da população mora nas cidades. Aos poucos, talvez não na velocidade que se desejaria, têm melhorado a qualidade dos serviços, a sofisticação e a criatividade da culinária, como também os hábitos de higiene e de comportamento à mesa. O país, no entanto, paga um preço pela modernidade: a paisagem urbana e as praças de alimentação dos shopping centers foram invadidas por redes de fast-food, cujo cardápio monótono e sem surpresas é o mesmo que um turista poderia encontrar na China, na Índia, na Rússia ou nos Estados Unidos. O belo livro de Alice Granato e Sergio Pagano comprova que lá longe, nas montanhas de Minas Gerais, nos Lençóis Maranhenses, na paisagem deslumbrante da Costa Nordestina ou nos vinhedos da Serra Gaúcha há ainda um Brasil saboroso, colorido e original que resiste à mesmice.

Laurentino Gomes, agosto de 2011

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